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ARTES CÊNICAS
A Flor e o Sol traz de volta o bom teatro infantil

por FLÁVIA DE GUSMÃO

A partir de amanhã, com o início da temporada de A Flor e o Sol, no Valdemar de Oliveira, pais, mães e tias vão se lamentar menos por terem de levar seus infantes ao teatro, pois são cada vez mais raros os espetáculos que respeitam a inteligência da criança e, ao mesmo tempo, demonstram certa sensibilidade para com o senso estético dos adultos.

A partir do texto de Cícero Belmar, o diretor Manuel Constantino devolveu à cena local o gosto por uma produção bem cuidada, com atores de verdade, trilha sonora feita sob medida, figurino e cenário bem resolvidos. Constantino não é nenhum novato: em 25 anos de atividade já passou por todos os palcos da cidade, explorou vários gêneros e veículos (recentemente pôde ser visto no Baile Perfumado, como ator e diretor de elenco). Cícero Belmar, jornalista há 13 anos, apesar de dois livros infantis publicados (Os Vagalumes e O Pintinho Bailarino), é um estreante na área de teatro infantil.

A química entre os dois parece ter funcionado: Belmar forneceu um texto enxuto, mas recheado de signos e Constantino conseguiu insuflar vida a personagens cujo universo resume-se a um fundo de quintal. A Flor e o Sol, de certa forma, trata de questões muito presentes no cotidiano profissional do autor. Não é à toa que o fio condutor é a própria notícia: a história começa quando a Brisa resolve divulgar a "fofoca verdadeira" de que uma flor, recém-nascida no quintal, está perdidamente apaixonada pelo sol.

Uma lagarta listrada vem incrementar a história com sua inveja e, principalmente, com um pragmatismo que diverte mais do que irrita. Nela, as crianças conseguem identificar maniqueistamente o mal; os adultos, reconhecem uma personagem mais do que manjada no dia-a-dia: aquela que concorda com tudo para tirar vantagem, o bajulador.

Como todo texto dedicado ao público infantil, onde um certo didatismo é cláusula quase obrigatória, A Flor e o Sol espalha suas mensagens em bloco: fala de sentimentos rasteiros, de traição, de amizade, do desejo de mudar e de sonhos tornados possíveis. A direção de Manuel Constantino conseguiu, no entanto, captar o humor sutil que está presente em todo o texto, como se os personagens tivessem um quê de ironia adulta.

A caracterização dos personagens é uma boa transposição desse humor fino para o palco. O Sol, que como o herói que é poderia ter sido representado de várias maneiras, tem ares de galã de subúrbio, algo como um ser que sabe de sua superioridade e, por isso mesmo, é levemente ridículo. A Brisa expressa-se exatamente como algo diáfano e leviano. A lagarta comporta-se exatamente como se move: avançando e recuando. O girassol, como protagonista, é talvez a própria criança que está na platéia: crédula, sonhadora e apaixonada. Alguém que merece o melhor.

FICHA TÉCNICA

A Flor e o Sol - espetáculo infantil

Público Alvo - dos 5 aos 10 anos

Texto - Cícero Belmar

Direção - Manuel Constantino

Produção - Margarida Rodrigues

Elenco - Alberto Brigadeiro (O Sol)

Cira Ramos (A Flor)

Marilena Breda (A Lagarta)

Roberto Vasconcelos (O Beija-Flor e A Raposa)

Zuleika Ferreira (A Brisa)

Gerson Lobo e Pascoal Filizola (Gnomos)

Iluminação: Triana Cavalcanti

Cenário e Figurino: Marcondes Lima

Coreografia: Paulinho

Sinopse: Um girassol tenta superar seu amor impossível pelo Sol e, no processo, aprende muita coisa sobre a vida: a alegria de ter amigos, a possiblidade de mudanças positivas e que o amor assume várias formas.

Em cartas: Teatro Valdemar de Oliveira, sábado e domingo, às 16 horas, até dezembro.

ARTES CÊNICAS II
Uma noite em que gente grande virou criança

É no mínimo curioso que uma peça infantil escolha adultos como o público de sua pré-estréia, realizada quarta-feira passada, no Teatro Valdemar de Oliveira. A produção de A Flor e o Sol, que acertou na escolha do diretor e do autor do texto, não errou também aqui. A estratégia aparentemente inadequada toca num ponto nevrálgico do combalido teatro pernambucano: a relutância dos setores público e privado em canalizar recursos para a produção cultural, mesmo tendo na retaguarda dispositivos como a Lei de Incentivo à Cultura (federal e estadual) e o Sistema de Incentivo à Cultura (municipal).

A Flor e o Sol atraiu um público adulto que não escoltava crianças pela mão para provar duas coisas: que é possível se divertir e se encantar com um bom espetáculo, independentemente da faixa etária; que as produções teatrais locais (assim como o pólo audiovisual está conseguindo) podem ser fonte de orgulho e retorno financeiro.

O que se viu foi uma apresentação emocionada, onde a platéia de marmanjos atendeu ao pedido da produção de "voltar a ser criança pelo menos por uma hora". A formalidade inicial foi abandonada quando o espetáculo não tinha chegado nem à metade, com a empatia imediata despertada pelo personagem vivido por Alberto Brigadeiro - o Sol, caracterizado como um misto de galã de subúrbio e clubber.

Os 25 anos de experiência de Manoel Constantino não foram suficientes para acalmar seu evidente nervosismo com a reação do público. "O espetáculo tomou um ritmo inesperado, de interação e compreensão dos signos, o que é ainda mais surpreendente por ser um texto simples, realmente direcionado a crianças. Este é um reencontro prazeiroso com uma linguagem que eu particularmente adoro, a do teatro infantil", declarou.

Foi também uma noite de agradecimentos. A atriz Marilena Breda (que viveu no palco uma impagável lagarta listrada) foi homenageada pelos seus 30 anos de carreira, recebendo de Dona Madalena Arraes um prêmio simbólico. A partir daí, todos foram chamados ao palco para receber os agradecimentos por uma empreitada que começou em agosto do ano passado para só agora tomar definitiva. A EMTU - Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos - foi aclamada como o mecenas da ocasião por ter acreditado no Sistema de Incentivo à Cultura e garantido a verba necessária. Além disso, a empresa vai iniciar um programa de estímulo à cultura, colocando seus ônibus para fazer o transporte de alunos da rede municipal de ensino que, assim, poderão ver a flor, o girassol e, de quebra, aprender que cultura vale o quanto se paga por ela.




Fonte
Jornal do Commercio
01/maio/98
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